quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Quantas vidas você tem?




Obviamente qualquer cristão responderá a pergunta com: Uma. E alguns ainda citarão Hb 9:27.

Más não é disso que estamos falando. Estamos falando de uma teologia que propaga a idéia de que temos vidas espiritual, sentimental, familiar, profissional e por aí vai a lista.
Não é raro ouvirmos afirmações do tipo:”A minha vida sentimental vai bem, más a minha vida profissional precisa melhorar”.
O problema não está apenas na linguagem em si e sim no fato dos ensinamentos que estão por trás dela não levarem o cristão a refletir a sua vida como um todo, conduzindo a espiritualizações indevidas em questões que devem ser tratadas de maneira prática, causando as constantes transferências de responsabilidades para Deus.
Como exemplos disso podemos citar a “vida financeira” onde os simplistas ou os oportunistas pregam que para ser resolvida é apenas uma questão de dar os dízimos e ofertas, impondo a automática repreensão devorador e tudo correrá bem, não se ensina que o dizimista não deve gastar mais do que ganha.  Na “vida sentimental” planta-se a ilusão de que Deus preparará a “escolhida” ou o “escolhido” e a vida a dois será um conto de fadas gospel, não se ensina que a vida a dois é de renúncia de um em função do outro.

Na verdade não temos essas “vidas” que pregam.
De fato, o que temos são papéis distintos a serem exercidos dentro de uma única vida. Cada um desses papéis nos impõe as suas devidas responsabilidades, que se não forem assumidas a contento resultarão em conseqüências desagradáveis.

No âmbito familiar, no trabalho, na Igreja ou na sociedade exercemos funções distintas e, como não poderia deixar de ser, a Bíblia não prescreve, más descreve as maneiras como um verdadeiro cristão desempenha cada uma delas.
Então, logo de saída já vemos uma inversão de conceitos. Enquanto numa proposta as “vidas” são colocadas diante de Deus para ele resolver, na outra, os papéis são colocados diante de nós para serem desempenhados de uma determinada forma.
Uma postura é para quem espera o “milagre” a outra é para quem tem a atitude da nova criatura.  II Co 5:17

A nova criatura tem uma nova vida e esta lhe dá as condições espirituais para que, se corretamente discipulado, possa desenvolver as capacidades morais necessárias ao desempenho dos papéis propostos, com a desenvoltura e o alto nível descritos pela Bíblia.
Na carta aos efésios, capítulos 5 e 6 Paulo discorre sobre a maneira como esses papeis são desempenhados pelos cristãos o que reafirma uma máxima já estabelecia por Cristo em JO 13:1-17.
Os papéis, que nos cabem, são necessariamente para servir os que nos rodeiam. O esposo serve a esposa, os pais servem os filhos, o patrão aos empregados e vice-versa para todos os casos.
Obviamente, por causa de nossas limitações, é factível falharmos no desempenho de qualquer um deles Rm 7:14-15 Tais tipos de falhas podem ser aferidas pelos frutos do arrependimento, o que não necessariamente eliminará as consequências.

Mais preocupantes são as falhas sistemáticas no desempenho dos papéis, que podem ser atribuídas às fissuras de caráter ou a pecados como o egoísmo, por exemplo.
A falta de conversão ou o discipulado equivocado podem ser as principais causas desses sintomas. A correção desses desvios é uma das atribuições da Igreja, no tocante aos crentes, de acordo com a orientação de  1Tm 3:13

São flagrantes as falhas nos discipulados, estimulados principalmente pelas teologias equivocadas estabelecidas no meio cristão, que resultam em crentes rasos, “umbigólatras” e hedonistas, incapazes de desempenhar os seus papeis à altura das exigências da nova vida e de assumir as responsabilidades implícitas.
Dessas incapacidades resultam as conseqüências e daí vem as propostas do caminho mágico das funcionalidades da fé, manipuladas para resolver esses problemas na “vida x y z” do crente, causados por alguma “maldição hereditária”, “uma ação demoníaca” ou qualquer outra espiritualidade fútil. Menos, é claro, culpa do indivíduo por causa do fraco desempenho de seu papel na área afetada.
Isso não é colocado em questão por que o mesmo cumpre todos os ritos da religião, dentre os mais comuns podemos citar: dar o dizimo, freqüentar os cultos, ser ativo na comunidade, etc. Então, como o crente “faz tudo certinho” não se abre a nenhum arrependimento e por sua vez nenhuma mudança de conduta acontece, transferindo-se para Deus a responsabilidade de resolver a questão, após a “campanha da vitória”, ou o  depois do “jejum das causas impossíveis”, ou após “seção de cura e libertação do pastor fulano de tal”, ou do “desafio financeiro da conquista”. Tais soluções são apresentadas como verdadeiras chaves, passos,  ou receitas para fazer Deus consertar os erros nas “vidas” dos insensatos.

Temos uma só vida e se Cristo não for o modelo (Lc 9:23), para desempenharmos os papéis nela propostos, nada poderemos fazer (JO 15:5)


Ielton Isorro