Outro dia, ao final de um culto, ouvi sobre uma determinada pessoa evangélica, que quando tem
algumas dificuldades não resolvidas na igreja, procura a ajuda de um médium
espiritualista, e o melhor (ou pior) sempre consegue os resultados esperados
Essa história não me surpreendeu em nada. As pessoas estão buscando uma
religião, ou serviço religioso, que funcione e que traga os resultados pelos
quais elas estão investindo tempo e dinheiro.
Algumas igrejas evangélicas têm se posicionado para responder à essa
expectativa e se apresentam como verdadeiras agências de milagres, bastando as
pessoas investirem a sua fé, que reclama dedicação, indo aos cultos, e
dinheiro, fazendo as contribuições para a ´obra´.
O resultado disso é o que vemos na mídia. Gente, aos milhões, procurando
pelas tais soluções mágicas nestas igrejas, que expõem em suas mídias os casos
de sucesso na forma de ´testemunhos´, estimulando outros a procurarem o mesmo
tipo de ajuda, pois em tese, o que deu certo para um dará certo para todos. E
se não der certo as explicações covardes estão prontas: Teria sido porque a fé do
postulante ao milagre não foi suficiente, ou as contribuições exigidas não
foram dadas, ou ainda porque tal pessoa estaria em pecado e ‘Deus não abençoa
quem está em pecado’
Nada contra milagres e o socorro aos necessitados. Porém, estudando os
evangelhos não vemos Jesus dar ênfase nessas coisas, dá forma como a igreja de
hoje dá, ainda que ele socorresse as pessoas. O discurso dele não era em torno
de seus milagres. Era outro:
“Jesus respondeu: "A verdade é que
vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque
comeram os pães e ficaram satisfeitos.
Não trabalhem pela comida que se estraga,
mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem lhes
dará. Deus, o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação". João 6:26:27
Diametralmente contra o que Jesus ensinou e em franca concorrência com os terreiros, casas de curandeiros e outras
instituições espirituais, as igrejas pentecostais e neopentecostais têm
disputado esse público carente de interferência sobrenatural, fazendo uma
propaganda parecida com as destas instituições (vide imagens acima). Vemos até as pequenas comunidades aderindo a esse discurso para não perder audiência.
Por conta dessa ênfase no atendimento das necessidades dessa vida, o
discurso evangélico tem arrastado multidões em troca de milagres. Toda essa
gente não está sendo desperta pela mensagem de Jesus, que fala de
arrependimento, renuncia, abnegação, caminho estreito, carregar cruz e serviço ao próximo. Isso
jamais lotaria igrejas. Mas, como alguém já perguntou "de que adianta o as igrejas estarem cheias se o céu ficar vazio?"
Cada vez mais, as pessoas procuram as igrejas evangélicas com a mesma
disposição que procuram um terreiro de umbanda, ou qualquer curandeiro. Simplesmente
para procurar alívio das suas dores e necessidades. Até aí nada de errado. Ele
mesmo afirmou "Venham a mim, todos os que estão cansados e
sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” Mateus 11:28 A questão é se (e
porque) as pessoas permanecem nessas igrejas. Afinal, depois que terminam uma
campanha começam outra. Depois que terminam um “desafio” iniciam outro... Mas permanecem como eternos "bêbês espirituais"
Ora, Será que Deus quer ser tratado como os ídolos são tratados nos centros e terreiros, onde as pessoas relacionam-se com as entidades pelo que elas podem fazer em
troca de um ritual (culto) ou de uma oferenda (oferta)?
Nota-se que muitas pessoas que fizeram
promessas em Aparecida, ou qualquer outro santuário católico, já encomendaram
um ‘serviço’ em algum terreiro de umbanda, e também fizeram ao menos uma campanha em igreja evangélica. Numa forma sincrética de estar bem com Deus, com santos
e com orixás. Por isso não estranhe se junto com os costumeiros e conhecidos
“vixe Maria!” e “Saravá meu pai!” começar a ouvir das mesmas bocas, também, um
“tá amarrado!”, “aleluia!” ou “gloria a Deus!”
É assim que a igreja brasileira patologicamente comemora
ter mais de 40 milhões de evangélicos. Fora os outros 50 milhões, ou mais, que
participaram de alguma atividade ou fizeram parte de alguma igreja e hoje não
querem nem ouvir falar do evangelho. Na
verdade, talvez nunca tenham ouvido. Não o evangelho de arrependimento que
Jesus e os discípulos pregavam.
nEle
Ielton Isorro
Para explorar mais esse assunto leia "Protestantismo Tupiniquim"- Gedeon Alencar - Arte Editorial