sexta-feira, 27 de junho de 2008

Fé, crianças na UTI e tsunamis

Esta semana, pela primeira vez, estive em uma UTI Infantil. Na companhia da mãe fui visitar uma criança, que já há sete meses ininterruptos permanecia presa a um leito daquele lugar, isso porque segundo os médicos os aparelhos ali instalados a mantem viva, já que após a forte pneumonia, motivo de sua internação, a menina não recuperou a condição de respirar sozinha.

Ao me aproximar daquele corpinho o meu coração se partiu, quando aqueles olhinhos negros se dirigiram aos meus, fui logo brindado com um sorriso irresistível. Pude notar, pelos lábios rosados de batom e a sombra colorida em suas pálpebras, que alguém delicadamente havia maquiado o seu rostinho e também lhe feito um penteado especial naquele dia. Uma boneca estava ao seu lado esquerdo, entre ela e a grade da cama, enquanto alguns brinquedinhos dançavam pendurados por cordões presos aos equipamentos que com suas luzes, gráficos e números piscando, delineavam o contraste daquele cenário.

O objetivo da minha visita ali era apoiar aquela família e orar por aquela menina, porém, não sabia que aquele dia seria tão marcante, já visitei muitos doentes e vi várias situações angustiantes, más não me recordo de ter vivenciado um paradoxo tão infeliz. Olhei ao redor e notei que nas outras camas estavam outros menininhos e menininhas, tão lindos quanto aquela que fora visitar. Não pude deixar de imaginá-las correndo atrás de bolas, empurrando carrinhos, pulando e gritando com toda vida e energia, como estamos mais acostumados a vê-las. Aquele cenário me chocou. A minha oração inevitável foi: “Meu Senhor, por tua misericórdia sem fim, crianças não combinam com este lugar!”. Intercedi por aqueles pequeninos, pedi que recebessem um milagre de restituição da saúde. Pensei no desespero de seus pais, que não os têm por perto, por um instante senti a dor deles e orei para que tivessem força e ânimo para superarem aquele momento horrível.

Sai daquele hospital sentindo sobre os ombros o peso da impotência que nos é peculiar diante de determinadas situações dessa vida. Como eu queria que após ter ouvido a minha oração (e sei que ouviu) Deus fizesse com que aquelas crianças saíssem ao encontro dos pais. Isso não aconteceu. O que eu podia fazer naquele momento era tentar consolar aquela mãe e pedir-lhe que continuasse crendo contra a própria esperança que a sua filhinha seria restaurada. Ainda mesmo que naquele momento a minha fé também precisasse ser renovada.

Quebrando a casca da hipocrisia, quem já passou por situações assim pode concluir que o nosso entendimento não é suficiente para realizar o fato de que o Deus que tudo pode, tudo vê e tudo sabe, e que muito antes que eu chegasse àquela UTI, lá já estava e conhecia todo esse drama, antes mesmo que eu orasse, Ele já sabia até quais seriam as minhas palavras, e ainda assim aquele quadro permanecia o mesmo, e que cada um de nós certamente se pudesse o mudaria. Talvez Jó tenha estado diante da mesma condição quando foi argüido pelo proprio Deus: “Onde você estava quando eu lançava os fundamentos da terra?” (Jó 38:4 ) Em outras palavras Deus estaria carinhosamente nos dizendo: menino, quem é você para me dar conselhos, ou para dizer como devo fazer as coisas?

Isaac, um cristão de Singapura, logo após o tsunami na Indonésia, redigiu a seguinte oração, talvez articulando melhor estes sentimentos, que não sabemos ou não temos a honestidade, ou mesmo a coragem e a transparência de expressar ao Senhor nessas ocasiões:

Deus, choramos pelas vítimas, mais ainda por aquelas que não acreditam em teu Nome. Tem piedade de todos nós. Não há dúvida que nos dói o coração ver gente sofrendo tanto nesta catástrofe do tsunami. Às vezes, somos levados a perguntar se pelo menos te preocupas com isso. Sei que não nos puniste por causa dos nossos pecados, pois vieste salvar os pecadores. Sabemos que nos amas, pois vieste morrer por nós. Más por que escolhes-te calar-te agora?

Por que o mundo foi criado imperfeito, com tantas falhas geológicas no subsolo? Não é possível que essas falhas tenham sido causadas por nossa ação, não é mesmo? Não dói em teu coração ver as famílias separadas, vidas jovens ceifadas e despedaçadas?

Sabemos que o vaso não pode questionar o oleiro e sabemos que deténs a verdade. Então a quem podemos recorrer se não a ti? Más não podemos deixar de pensar que se um homem consegue perdoar e amar o seu inimigo, como pode o Autor de nosso amor deixar perecer os que não acreditam nele? Perdoa-nos por questionar o teu amor – nós questionamos porque acreditamos que és amor e porque buscamos explicações para o que aconteceu. Sabemos que nossas perguntas não serão respondidas aqui na terra: simplesmente oramos para que continues mantendo viva a nossa fé. Amém.

(Oração retirada do livro de Philip Yancey - Oração, ela faz alguma difereça? Pg 115 ed. Vida 1ª ed.)

Ao Deus da Graça toda gloria, por tudo!

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