segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Haiti é aqui?




Nas cenas de busca por sobreviventes no Haiti, após o terremoto que, a exemplo dos tsunamis de 2004 na indonésia, nunca saberemos a exata quantidade de mortos, vemos a ação dos bombeiros e outros agentes de salvamento. Homens que gastam todas as energias de seus corpos, até à exaustão, para retirar pessoas com vida de sob toneladas de escombros em que se transformou um país.
Numa injusta corrida contra o tempo, esses valentes saíram de seus países, deixaram suas famílias para arriscar as próprias vidas debaixo do que sobrou de construções que ameaçam cair, colocando em risco a vida de quem poderia simplesmente dizer “não tenho nada com isso”.
Ainda que consigam êxito em várias tentativas, é impossível conter as lágrimas vendo tanta força e empenho empregados para revelar a impotência humana, diante do desespero de milhares de pessoas morrendo à míngua, literalmente enterradas vivas.

Não pude deixar de correlacionar essa situação de impotência a outras, como a da Dra Zilda Arns, mulher cristã, que deixa um dos maiores legados que um cristão brasileiro já deixou e que bravamente terminou em pé a sua carreira. Não deixa de me dar nojo quando, por pura imaturidade cristã alguns bairristas “evangélicos” tentam questionar-lhe a fé por ser católica e, por assim ser, seguir os seus costumes e tradições, como se também, estes, tivessem os seus costumes e tradições inquestionáveis. Aos tais, antes de fazerem qualquer condenação, ou rotulação besta de “humanista”, recomendo-lhes Jesus, e o que falou sobre a trave e o cisco no olho.
Essa preciosa irmã trabalhou como poucos, para não dizer ninguém, pela questão da infância no Brasil. Queria ser missionária, e foi, más resolveu também ser médica e pediatra para ajudar com mais eficácia as crianças de quem disse em uma de suas últimas falas: “As crianças, quando bem cuidadas, são sementes de paz”. Insatisfeita, criou, implantou e geriu a Pastoral da Criança, uma das fundações mais relevantes no mundo, quanto aos resultados contra a mortalidade infantil.
Más, vêm de novo as lágrimas em função da imensa sensação de impotência quando, mesmo depois do empenho da Dra Zilda e de outras milhares de pessoas no mundo, que se ocupam com essa causa, vemos a enorme quantidade de crianças que morrem de inanição, ou que são abandonadas pelos pais, ou que ainda são vítimas quotidianas de covardes abusos.

Não me perdoem os triunfalistas, más, como pastor em igreja, há menos de uma década, muitas vezes já fui acometido dessa horrível sensação, e estou certo de que outros colegas também já o foram. Lutamos com todas as forças para ensinar os crentes sobre as doutrinas fundamentais do Evangelho, a importância da vida cristocêntrica, o Evangelho da Graça, o cuidado com o próximo, o pecado e as suas conseqüências.
Porém, o coração de pastor se parte quando vemos uma de nossas adolescentes engravidando precocemente, apesar das orientações constantes; Um de nossos rapazes voltando às drogas ,de onde fora resgatado; A indiferença de alguns frente às necessidades dos outros; O dedo acusador de alguns que se colocam contra os que caíram, ao invés de ajudá-los; um casal que depois de horas de aconselhamento e oração se divorcia porque não conseguiram ser “felizes”;Um membro que questiona “por que não somos mais ousados como essas igrejas da TV? olha quanto dinheiro eles arrecadam”.
O sentimento de impotência cresce à medida em que esses fatos ocorrem nas congregações por nós orientadas. Acrescento ainda o fato de que, apesar dos esforços que temos feito, a quantidade de pessoas que sofrem marginalizadas ao redor da nossa comunidade e que morrem sem que consigamos  alcançá-las é imensa.
Diante dessas constatações é inevitável sentirmos um pouco do que sentem aqueles homens, que lá no Haiti, no momento em que digito esse texto, estão cavando destroços com as mãos para salvar alguém, enquanto milhares de outros morrem, metros abaixo de onde está o socorro que não chega a tempo.
Eles lá e nós aqui percebemos o tamanho da fraqueza a que nos submete a condição humana. Más, continuamos cavando.
O que serve de alento é o fato de que Jesus, que não era limitado, também passou por aflições, quando perdeu Judas, por exemplo; Ou na negativa de Pedro; ou antes na megalomania dos filhos do trovão. Diante das aflições, ele afirmou: “Tende bom animo!”

Ainda bem que as nossas fraquezas não impedem Deus de executar o que se propôs, pois ele é forte.
Resta-nos recordar o que foi dito a Paulo e o que ele fez diante dessa condição:  “ E disse-me: A minha graça te basta, porque o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, me gloriarei nas minhas fraquezas, para que em mim habite o poder de Cristo.
Por isso sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias por amor de Cristo. Porque quando estou fraco então sou forte” II Co 12:9-10

A Deus toda glória!

Ielton Isorro

Um comentário:

Alan Brizotti disse...

Ielton, paz!

Belo texto! Obrigado por sua visita. Fique à vontade em meu blog, a casa é sua.
Abraços