quarta-feira, 25 de maio de 2011

“Saravá meu pai! Viche-maria! Tá amarrado!”




Outro dia, ao final de um culto, ouvi sobre uma determinada pessoa evangélica, que quando tem algumas dificuldades não resolvidas na igreja, procura a ajuda de um médium espiritualista, e o melhor (ou pior) sempre consegue os resultados esperados

Essa história não me surpreendeu em nada. As pessoas estão buscando uma religião, ou serviço religioso, que funcione e que traga os resultados pelos quais elas estão investindo tempo e dinheiro.
Algumas igrejas evangélicas têm se posicionado para responder à essa expectativa e se apresentam como verdadeiras agências de milagres, bastando as pessoas investirem a sua fé, que reclama dedicação, indo aos cultos, e dinheiro, fazendo as contribuições para a ´obra´.

O resultado disso é o que vemos na mídia. Gente, aos milhões, procurando pelas tais soluções mágicas nestas igrejas, que expõem em suas mídias os casos de sucesso na forma de ´testemunhos´, estimulando outros a procurarem o mesmo tipo de ajuda, pois em tese, o que deu certo para um dará certo para todos. E se não der certo as explicações covardes estão prontas: Teria sido porque a fé do postulante ao milagre não foi suficiente, ou as contribuições exigidas não foram dadas, ou ainda porque tal pessoa estaria em pecado e ‘Deus não abençoa quem está em pecado’

Nada contra milagres e o socorro aos necessitados. Porém, estudando os evangelhos não vemos Jesus dar ênfase nessas coisas, dá forma como a igreja de hoje dá, ainda que ele socorresse as pessoas. O discurso dele não era em torno de seus milagres. Era outro:
“Jesus respondeu: "A verdade é que vocês estão me procurando, não porque viram os sinais miraculosos, mas porque comeram os pães e ficaram satisfeitos.
Não trabalhem pela comida que se estraga, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem lhes dará. Deus, o Pai, nele colocou o seu selo de aprovação". João 6:26:27

Diametralmente contra o que Jesus ensinou e em franca concorrência com os terreiros, casas de curandeiros e outras instituições espirituais, as igrejas pentecostais e neopentecostais têm disputado esse público carente de interferência sobrenatural, fazendo uma propaganda parecida com as destas instituições (vide imagens acima). Vemos até as pequenas comunidades aderindo a esse discurso para não perder audiência.

Por conta dessa ênfase no atendimento das necessidades dessa vida, o discurso evangélico tem arrastado multidões em troca de milagres. Toda essa gente não está sendo desperta pela mensagem de Jesus, que fala de arrependimento, renuncia, abnegação, caminho estreito, carregar cruz e serviço ao próximo. Isso jamais lotaria igrejas. Mas, como alguém já perguntou "de que adianta o as igrejas estarem cheias se o céu ficar vazio?"

Cada vez mais, as pessoas procuram as igrejas evangélicas com a mesma disposição que procuram um terreiro de umbanda, ou qualquer curandeiro. Simplesmente para procurar alívio das suas dores e necessidades. Até aí nada de errado. Ele mesmo afirmou "Venham a mim, todos os que estão cansados e sobrecarregados, e eu lhes darei descanso.” Mateus 11:28 A questão é se (e porque) as pessoas permanecem nessas igrejas. Afinal, depois que terminam uma campanha começam outra. Depois que terminam um “desafio” iniciam outro... Mas permanecem como eternos "bêbês espirituais"
Ora, Será que Deus  quer ser tratado como os ídolos são tratados nos centros e terreiros, onde as pessoas relacionam-se com as entidades pelo que elas podem fazer em troca de um ritual (culto) ou de uma oferenda (oferta)?

Nota-se que muitas pessoas que fizeram promessas em Aparecida, ou qualquer outro santuário católico, já encomendaram um ‘serviço’ em algum terreiro de umbanda, e também fizeram ao menos uma campanha em   igreja evangélica. Numa forma sincrética de estar bem com Deus, com santos e com orixás. Por isso não estranhe se junto com os costumeiros e conhecidos “vixe Maria!” e “Saravá meu pai!” começar a ouvir das mesmas bocas, também, um “tá amarrado!”, “aleluia!” ou “gloria a Deus!”

É assim que a igreja brasileira patologicamente comemora ter mais de 40 milhões de evangélicos. Fora os outros 50 milhões, ou mais, que participaram de alguma atividade ou fizeram parte de alguma igreja e hoje não querem nem ouvir falar do evangelho. Na verdade, talvez nunca tenham ouvido. Não o evangelho de arrependimento que Jesus e os discípulos pregavam.

nEle

Ielton Isorro
Para explorar mais esse assunto leia "Protestantismo Tupiniquim"- Gedeon Alencar - Arte Editorial

Um comentário:

Unknown disse...

Triste, a constatação de que muito do que se anuncia como evangelho de Jesus Cristo não passe de um caldeirão de sincretismo religioso, boa fé de uma sociedade mística e super pitada de desavergonhada exploração ao próximo.
Ouví sobre um tempo onde o evangélico era visto como um sincero buscador de Deus mas, por conta deste cenário de prática mística-religiosa evangélica já somos vistos como sinceros buscadores de prosperidade a qualquer custo.
Lembrei-me do que Paulo encontrou passando por Corinto, Atenas e até em Éfeso com seus exorcistas descamisados de plantão.
De lá para cá tudo piorou e muito.
Fica-nos a desafiadora mas, privilegiada tarefa, de anunciar o Deus desconhecido sem interesse comercial ou proselitismo, no poder do Espírito Santo e, sobretudo, com testemunho de vida.
Vamos, juntos, fazer discípulos.