segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O cliente sempre tem razão

"As pessoas hoje se sentem menos presas. Frequentam mais de uma igreja, sem nenhum problema. Às vezes, escolhem uma de acordo com os serviços que são oferecidos."


A frase acima foi dita pelo pastor Valdeci Pereira, 42, da igreja Batista no Santa Marta – RJ - a respeito da freqüência com que os evangélicos mudam de igreja. A afirmação foi feita em uma matéria publicada na Folha de São Paulo que trata sobre o aumento dos evangélicos não praticantes e dos que freqüentam diversas igrejas simultaneamente (http://www1.folha.uol.com.br/poder/959792-trocas-de-igrejas-sao-comuns-em-favela-na-zona-sul-do-rio.shtml)

De fato, o pastor Valdeci tem toda razão na sua afirmação. Em um mundo onde as campanhas de marketing cada vez mais destacam que as pessoas podem e devem ser atendidas pelas instituições e seus produtos, a igreja, nivelando-se ao utilitarismo das demais instituições, também adequou os seus discursos para atrair gente que precisa ver atendidas a contento suas demandas, familiares, emocionais, financeiras e de saúde. 
Isso por um lado foi muito bom porque atraiu um grande número de pessoas para a igreja. Principalmente as pentecostais e neopentecostais, que saturaram o uso desse modelo de marketing, baseado no apelo emocional pelas necessidades, entre as classes C e D onde as carências sempre foram maiores e, por assim ser,  as promessas de saúde e prosperidade encontraram grande aderência. Algumas destas igrejas chegam ao absurdo de fazer as pessoas reclamarem com Deus e o colocarem contra a parede, nas suas orações, quando os seus pedidos não são atendidos. Da mesma forma como estão acostumadas a fazer nos Serviços de Atendimento ao Cliente das empresas quando estas não entregam o que foi comprado!

Agora se mostra o outro lado da moeda, que também já é experimentado por todas as instituições. O consumidor, antes de ser fiel a qualquer instituição ou produto, é fiel a si próprio e acaba ficando com aquele que lhe atende melhor, até que outro o faça.

Os números do IBGE divulgados na matéria, reforçam a necessidade de repensar esse modelo de igreja. 
Não seria  tempo de voltarmos ao modelo proposto por Jesus (João 13:12-17), onde o "serviço ao outro" deve estar em primeiro lugar, antes do "serviço a mim mesmo"? 
Onde estão os crentes abnegados, prontos a alcançar o necessitado, sem ocupar a posição de um cliente que precisa ser bem atendido em qualquer circunstância, por ter fé, dar o dízimo, ou por atender os demais desafios propostos pela igreja?

Por certo, muitos pastores ainda desafiam suas igrejas a viverem esta vida abnegada dentro e fora da congregação. Não obtendo a resposta devida dos crentes, esses líderes veem-se encurralados e reféns da própria congregação que ameaçam abandonar a igreja e procurar outra onde possam servir a Deus com "liberdade". E a oferta, justificada pela procura, é grande! 
A maioria dos evangélicos estão impregnados pelas mesmas motivações egoístas que embalam o restante da sociedade, e buscam uma igreja-instituição-paternalista que os atenda, um lugar onde se sintam bem e não onde sejam diariamente chamados a lembrar do desconfortável chamado do Cristo, para sermos agentes de SERVIÇO, lavando os pés uns dos outros e promotores de TRANSFORMAÇÃO, sob a ordem de tomar a própria cruz e segui-lO, arcando assim com as responsabilidades de ser Igreja. Isso não é para os que procuram o bônus de pertencer a uma igreja sem o ônus de ser Igreja.

nEle

Ielton Isorro

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