quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dependência


Deus quando planejou a vida do homem idealizou-a para ser vivida em comunidade e por esta razão absolutamente nenhuma criatura tem cem por cento de autonomia e de independência, tal condição só o próprio Criador detém.

Isso se constata já antes do nascimento. Fato fácil de ser observado, é que até hoje ninguém se autoconcebeu. Todos dependeram da iniciativa e do corpo de outras pessoas para virem ao mundo, o próprio Jesus, que tem poder para isso, não o fez, dependendo do corpo de uma jovem para vir ao mundo.

Não apenas na concepção, más durante a gestação a dependência continua, pois a criança se alimenta do que a mãe ingere e a sua vida depende da vida no corpo da mãe. Após o nascimento a dependência não acaba, pelo contrário, se acentua ainda mais, já que o recém nascido não anda, não fala e não sobreviveria sem os cuidados dos pais. Com o passar do tempo e o crescimento, a relação de dependência em relação aos adultos vai mudando, os pais vão orientando a criança a se cuidar sozinha, até que ela possa se alimentar, se vestir e cuidar do seu corpo sem a interferência de outras pessoas.

Ao atingir a idade adulta o ser humano já se sente independente e pode se cuidar, más ao contrário do que muitos pretendem, essa independência não é geral, nem irrestrita. O modelo que Deus escolheu continua em vigor, para crentes e ateus. Por mais que nos julguemos autônomos isso nunca será verdade, pois estamos sempre dependendo de alguém. A relação de dependência do ser humano em relação aos outros não acaba, por mais que a sociedade tente por fim a ela, e isso pode ser notado nas coisas mais comuns do quotidiano, se não vejamos:
Quando estamos esperando a nossa vez numa fila de supermercados dependemos da pessoa que está atendendo, para que chegue a nossa vez. As mercadorias que estão no carrinho de compras só chegaram à gôndola de onde as retiramos porque alguém as colocou lá, à nossa disposição. Sem contar que antes disso ocorreu todo um processo comprometidas por etapas como fabricação, embalagem, transporte, que por mais automação a que estejam submetidos hoje em dia, no mínimo, dependeram de alguém para apertar um botão.

Não há nenhum setor da sociedade no qual vivamos que não inclua a dependência de pessoas. Se acionamos um interruptor em nossa casa e uma lâmpada acende, milhares de pessoas estiveram envolvidas para que isso ocorresse. O mesmo ocorre quando abrimos uma torneira e usamos a água tratada que sai dela. Em toda e qualquer outra atividade o ciclo de dependência de outras pessoas estará sempre presente.

Obviamente algumas dependências de pessoas são facultadas, por conforto ou por outros motivos, como é o exemplo de alguém que é servido em casa por empregados, o que não se dá por necessidade, já que qualquer adulto capaz pode colocar comida no próprio prato e encher o próprio copo.

Agora vamos mexer na ferida. A questão da dependência passa a ser prejudicial em pelo menos duas circunstâncias. A primeira é quando a pessoa se julga totalmente independente, ignorando a existência e a importância de outros que contribuem para o bem estar comum. Colaboradores sem os quais produtos e serviços não estariam disponíveis para uso da sociedade. Há um tipo de gente que só é grata ao dinheiro que possibilita comprar. Gente embriagada de poder, só respeita a riqueza que conduz o mundo aos seus pés, segundo entendimento obtuso.

A segunda, e talvez pior, é quando as pessoas querem depender de outros para algo que elas mesmas podem fazer e ficam esperando ou procurando alguém que assuma as suas responsabilidades. É muito comum vermos pessoas atribuindo a Deus, ao governo e a quem mais aparecer, a culpa por tudo de errado que os cerca. Esse mesmo tipo de pessoa está esperando que Deus, ou o governo, ou o patrão assumam as responsabilidades que teriam perante elas mudando a sua situação. São portadoras do que podemos chamar de dependência fraudulenta. “Encostados” que sofrem o dês-serviço das circunstâncias, eternas vítimas da vida, aguardando o surgimento de um “salvador da pátria” trazendo uma solução mágica, uma “oração forte” ou alguma outra saída, desde que não as comprometa com muito empenho, disciplina e continuidade. Importa para elas que no fim sejam servidas em suas “necessidades” e nada de sofrimento, pois “Cristo já levou as nossas dores”.

É muito dificil de assimilar quando alguem procura alguma forma de ter a sua falta de empenho compensada por um milagre, como aqueles onde os curriculuns de pessoas melhores preparadas são deixados de lado e o delas é que deve ser escolhido, para comprovar “a diferença entre o que serve e o que não serve a Deus”.

Em outros casos estão orando, para que o juiz não leve em conta ou não veja os detalhes de crimes cometidos por seus filhos, que um anjo esconda o processo fazendo falhar a justiça do homem para absolvição de crimes e que Deus mude as sentenças, pedindo que ele aja como um juiz iníquo, alegando que “não é levado em conta o tempo da nossa ignorância” ou algum outro versículo que lembre (e cobre) a bondade de Deus, admoestando-o a agir em concordância com o entendimento que temos da Palavra.

Podemos então concluir que há uma dependência nociva ao homem, por não o estimular a agir com responsabilidade diante das circunstâncias desfavoráveis da vida e não permitir o seu desenvolvimento enquanto pessoa e cidadão. Infelizmente este tipo de dependência é incitado por agentes que promovem um evangelho paternalista, do tipo “deixem as suas cargas com Jesus e peguem o seu julgo que é leve e suave”, infelizmente esse discurso leva alguns a deixarem as cargas e transferirem as responsabilidades para Jesus.

Podemos também entender que há sim uma dependência profícua e aprazível, encontrada na providência de Deus para as nossas verdadeiras necessidades. Onde não pretendemos abusar da bondade do nosso Pai, nem usar a fé que nos foi dada, tão somente, como trampolim para saltar sobre as condições adversas que nos sobrevêm ou como uma varinha mágica que manipula as realidades em nosso favor, ainda que tudo seja possível ao que crê, devemos nos lembrar do “seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” Amém!

Ao Deus da Graça, toda gloria, por tudo!




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