quinta-feira, 12 de junho de 2008

Dunamis!

Comando, domínio, controle sobre fatos e circunstâncias são aspirações humanas. Desejos que não são de origem contemporânea, na verdade existem desde os primórdios da humanidade e são motivados, hora pela falta de certeza existente em relação ao futuro, hora por situações do presente que prejudicam o curso da vida. Ter acesso ao poder de mudar as possibilidades ou de alterar as ocorrências que nos desgostam é um sonho antigo, motivando no passado a busca pela pedra filosofal, as tentativas de criar o elixir da longa vida e também tem determinado a maioria das invenções e descobertas da atualidade.

A primeira grande catástrofe relatada na história foi o dilúvio. O evento submeteu, pela primeira vez, a humanidade a uma ocorrência de proporções gigantescas, caracterizada por estar totalmente fora do seu controle ou vontade. Deus soberanamente decidiu pela cheia, dando para isso justificativas, que como Deus nem necessitava apresentar, más humildemente o fez (Gn 6:13). Logo após este acontecimento a sociedade se reuniu para construir a Torre de Babel, tentando a famosa ´volta por cima´ para manter as situações sob controle, e deram como explicação para a empreitada o desejo de não serem espalhados sobre a terra (Gn 11:4) Indo, mais uma vez, frontalmente contra uma determinação de Deus (Gn 9:1) Resultado da peleja? A sociedade foi dividida. E daí em diante não falaram mais o mesmo idioma.

Desde então se tornou insofismável o desejo de controlar o incontrolável, e fazer compreensível o que vai além do (indesejável) limite da compreensão humana.

Ninguém quer ser vitima das circunstâncias, todos querem manipular os acontecimentos, para se livrar do inevitável. A interminável busca pelas chaves que controlam o universo fez com que a humanidade, nas muitas vezes que as alcançou, girasse as mesmas para o lado errado, trazendo sobre si outras circunstâncias menos desejosas do que as primeiras. Como podemos notar em nossos dias pelo efeito estufa, que pode ser citado como um entre outros milhares de outros exemplos.

Vale lembrar que muito antes de nós, uma outra criatura também tentou girar essas chaves, achando que teria mais sucesso do que o Criador delas (e dele!) (Is 14:13) E não é de se espantar, que o infeliz, também acabou por colher conseqüências terríveis desses intentos (Is 14:15).

Comprovadamente a criatura, seja anjo ou homem, não sabe lidar com o poder. Alguém já disse que “só é digno do poder quem o despreza”. Porém, difícil coisa é encontrar esse tipo de pessoa, e na igreja o grau de dificuldade parece que aumenta. Quem não quer ter o poder de saber o que ocorrerá no futuro (profecia)? Ou quem não quer ter poder sobre as enfermidades? Ou ainda, poder para acabar com as dificuldades da vida, como as financeiras, por exemplo? Ou poder político para mudar situações como do aborto e da homosexualidade. É só mostrar as chaves que abrem e fecham essas possibilidades e os crentes farão o que for necessário para ter acesso a elas e girá-las. Isso explica, em parte, porque muitos buscam os dons do espírito, usam o nome de Jesus e são dizimistas. Acrescente a esse cenário as distorções no sentido de alguns versículos, como: “posso toda as coisas naquele que me fortalece” e veja no que deu: Um número imenso de pessoas acreditando que não serão mais vencidas por acidentes ou enfermidades, com poder para estar acima das fatalidades e arrogantemente crendo que sempre terão sucesso em tudo.

Discursos convincentes, contendo fórmulas de acesso a esse poder, fazem lotar auditórios, na maioria das vezes, com pessoas atraídas pela possibilidade de alterar fatos e circunstâncias de suas vidas, situações que somente por interferência divina poderiam mudar. Ao final de cada uma destas reuniões há de um lado os afortunados que recebem as mudanças pretendidas e que são candidatos aos programas de entrevistas, onde darão com detalhes os seus testemunhos de vitória. Más do outro lado, há uma maioria, não convidada para dar entrevistas, e que pela fé continuará tentando nas próximas reuniões ou campanhas. Pior ainda, há um terceiro grupo de pessoas que não voltará mais, pois para estes já é tarde, até mesmo para um milagre. Na atual conjuntura é conveniente que este terceiro grupo seja mantido longe das câmeras e dos microfones, pois não fazem parte dos cases de sucesso, são os excluídos do evangelho toma-lá-dá-cá, deram e não receberam, portanto contrariam e ameaçam o triunfalismo e as afirmações de poder alardeadas.

Infelizmente, para sustentar esse discurso e manter a “esperança” do rebanho, há quem não hesite em lançar a culpa na falta de fé ou no pecado dos que fracassaram, que não tiveram os méritos necessários para vencer.

É bom lembrar que Jesus chamou atenção da multidão ao ser procurado apenas pelo pão que ele multiplicava (poder) e não por causa de quem ele é. Há diferença nos dias de hoje? Por que a multidão se achega às igrejas? E quando chegam, estão sendo orientados a buscar a face do Senhor e conhecerem o seu amor ou somente a desejarem o que está na sua mão e o que pode ser conquistado com o seu poder? É bom e urgente pensarmos nas respostas. (Mt 7:22)

Ao Deus da Graça, toda gloria, por tudo.

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