quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Evangélicos: Filhos da rebeldia e insurreição




Por Abel Garcia Garcia

América Latina adora governos controladores e ditatoriais. Nós gostamos mesmo é de ser dominados com mão forte e pisoteados por botas sujas de lama, de fazer testes de sobrevivência e de viver com salários paupérrimos. Por fora, desejamos a liberdade mas lá no fundo, nas profundezas do nosso coração, nós adoramos aos Chávez, Velascos, Fujimoris, Pinochets e Ortegas. Por isso que a versão do cristianismo que prioriza o controle prosperou em nossos países. O pentecostalismo, cheio de pastores estritos e exigências de submissão injustificáveis que o povo aceita de boa vontade, é um perfeito exemplo, quase ideal – apesar da “igualdade” que a democratização dos dons proporcionou. Seu crescimento continuará, porque sua proposta combina com o espírito latino, carente da figura paterna e abundante de deuses débeis e servis.

Todo esquema controlador é implantado por etapas, é suave no início, mas acaba por satanizar os seus críticos, enquanto venera as estruturas opressoras como se fossem um santuário incólume que deve se manter pelos séculos dos séculos! Os líderes tem características especiais, cada vez mais altas e mais próximas do “céu”. Os apóstolos de hoje são um claro exemplo: intocáveis, semi-onipotentes, movidos pelo desejo de controlar, razão pela qual desejam ter várias congregações. Um sinergismo perfeito onde todos – aparentemente – estão felizes. O problema é que estar feliz não significa estar bem.

Alguns de nós não enxergam essa estrutura como padrão do céu, antes, com certo temor, entendemos que a igreja assume um grande risco e pode pagar um alto preço por causa do modelo implantado. Cremos que uma relação vertical com o clero não faz bem aos leigos, desumaniza pessoas, não permite que os crentes se desenvolvam e os converte literalmente em rebanho. Contudo, entendemos que esta superação pode levar alguns anos mais. Não, muitos, mas alguns... A tecnologia e a facilidade de interligar pessoas pode acelerar essas transformações.

Enquanto as coisas vão mudando, outros apressam o processo, em aberta oposição ao status quo. É óbvio que a liderança reage, identificando seus oponentes como agentes de satanás. Eles tratam de proteger as estruturas eclesiásticas, proibindo toda crítica, acusando os dissidentes de viverem uma espiritualidade rasa, gente rebelde cujas palavras devem ser ignoradas. Nem quero pensar o que aconteceria se ainda estivessem vigentes os métodos de tortura da época da “santa” inquisição.

Rebeldia e insurreição são, no atual sistema eclesiástico, obscenidades anti-valores dignos de pessoas ímpias, ou de ateus que nada sabem acerca de Deus. Porém, o grande paradoxo é que, caso estas atitudes não tivessem existido na história da igreja, nós ainda estaríamos pagando por indulgências. Se não houvesse rebeldia e insurreição, Lutero jamais teria publicado suas 95 teses, Savonarola continuaria silencioso em seu mosteiro, passivo diante da degeneração dos Borgia, e Calvino nunca teria elaborado sua teologia. Sem rebeldia, nós – evangélicos – sequer existiríamos. Seríamos católicos, ou qualquer outra seita pseudo-cristã, que só em pensar dá calafrios. Se não houvesse revolta e enfrentamento contra o institucionalismo religioso, não existiria uma igreja evangélica. Somos, portanto, filhos da insurreição, e gostemos ou não, isso é o que nos faz diferentes dos outros grupos cristãos. Essa atitude de repaginar o cristianismo deve marcar o nosso caminhar. Logo, rebeldia não pode mais ser considerada uma palavra má.


***
Abel Garcia é professor no Centro Evangelico de Misiologia Andino-Amazonico e editor do blogTeonomia. Traduzido por Leonardo Gonçalves, para o Púlpito Cristão






    3 comentários:

    Anônimo disse...

    2010/1/14 Ester Gomes
    Bem... não entendi muito bem o que o autor quiz dizer com relação vertical com o clero, porque sei que o nosso relacionamentyo vertical tem que ser com Deus, homem nenhum pode terceirizar isso. A propósito o autor é brasileiro? Ele não cita nenhum lider brasileiro. Porque dá a impressão que o comentário é de um cristão ainda arraigado nos princípios de um cristianismo baseado nos padrões católicos do Clero mesmo e não do Católico do tempo dos Apóstolos. Os apóstolos nos ensinaram a respeitar todas as autoridades levando em consideração que todas foram constituídas por Deus. Sabe aquela frase: " Cada povo tem o governo que merece..", Salomão fala disso da mesma maneira com outras palavras.
    Quanto ao povo...penso que eles se deixam escravisar tanto, sem fazer qualquer crítica, porque realmente foram acostumados a depender somente dos líderes, principalmente daqueles que alcançaram o que são hoje porque "pagaram um preço" (bem entendido), e, o poder de alguma forma vai tomando volume e eles percebem o domínio que tem porque alguém deixa por falta de examinar a palavra. A bíblia diz "Conhecerei a verdade e a verdade vos libertará". Quem não tem estrutura não se estabelece. Quem não conhece a palavra não sabe como agir com estes líderes.
    Concordo com o autor quando fala sobre o conformismo do povo, mas não penso que é só sobre o sistema governamental que a conduta do povo deveria ser paralelizada, mas em outros âmbitos da vida também, por exemplo, na educação, onde as mães aprenderam de alguma forma a deixar os seus filhos totalmente na mão de terceiros isentando-se de suas responsabilidades. O costume do povo Latino é querer tudo na mão, "vem a nós e o vosso reino nada", percebendo o comportamento da maioria cristã, todos corroboram para isso, nós não estamos fazendo o nosso papel de "...a melhor coisa é dar do que receber." Estamos orando, jejuando e lendo a bíblia muito pouco, ou quase nunca, como poderemos ter critérios ou capacidade para decernirmos o que é certo ou errado para nós, se consultamos a cartilha de Deus muito pouco, ou se levamos a vida de cristão como recebedores e não doadores também. Estamos sulgando tudo e com isso o lixo vem junto é por isso que somos dominados. A bíblia diz que o verdadeiro lider dá a sua vida pelas ovelhas e essas ovelhas estão confundindo esse dar, porque não perceberam a sutiliza dessa situação. (continua)

    Anônimo disse...

    (continuação de Esther Gomes) Elas estão achando que este dar é somente material e o espiritual não foi captado. Conheci um pastor que dizia: "Ovelha gera ovelha".
    Queremos ser livres no pensamento. Livre é quem tem a mente de Cristo. O que não tem a mente de Cristo por falta de esclarecimento da luz da palavra é presa fácil de todos o que examinam e utilizam a mesma para dominar e não para ensinar. O analfabeto estará sempre à deriva e não na direção, no alvo certo. Ele é dependente de todos e pode encontrar os que se aproveitam disso. Estamos sendo sentivados ao pula-pula, sobe-sobe, desce-desce, rola-rola, e pouco a consituir uma seriedade e prática nos negócios de Deus. Os líderes perceberam que se eles passarem este conhecimento haverá muitas idéias e críticas e talvez eles não estejam preparados para diálogos e sim somente para o domínio sem discussão.
    Paulo disse para obedecermos aos líderes. Será que prestamos atenção aos líderes que foram se formandos durante o passar dos anos, onde nos tornamos omissos e mau acostumados a " só vem a nós", enquanto esses líderes buscavam o reino e depois se perderam no caminho por nossa própria culpa? Deus disse que a Glória é somente dele e demais ninguém, mas o que fazemos hoje é adorar mais os feitos das criaturas do que do Criador. Enquanto os predadores iam se proliferando os cristãos iam ficando acostumados a só receberem, então eu penso que nós também temos a nossa parcela de culpa.
    Não acho que uma pessoa dentro da casa de Deus que não esta concordando com tudo que o lider faz é rebelde e sim um conhecedor da palavra, mas ele entende que o lider é limitado, claro, que nem por isso o lider vai tirar o direito que essa ovelha tem de mudar de curral. Quando Martinho Lutero se posicionou contra o Clero ele tava cheio do conhecimento e da graça e como ele apareceu outros, mas para isso eles andavam con Deus e tinham pleno conhecimento da palavra e argumentos muito fortes que os líderes não poderiam de forma alguma vencer. O que não é o caso da maioria hoje.
    Não acredito que exista alguma liderança perfeita, nós sempre vamos encontrar vários defeitos e nem todos os líderes estão aptos para receberem críticas, mas eu ainda acredito naquilo que Deus falou para Elias ..."ainda existe ________que não se contaminaram."... Acredito que existam ainda muitos líderes sinceros para com Deus e falando do jeito que o escritor disse parece que todos os líderes cristãos latinos estão dentro desse balaio de gato. Liderar não é fácil é mais fácil dominar.
    .

    Ielton Isorro disse...

    Olá Ester. Saudades!


    O autor não é brasileiro, más é sul-americano e ele fala do nosso contexto cultural, onde a tendência é sempre verticalizar e nesse modelo aos que gostam de poder para comandar e (pior) os que gostam de poder para ser comandados. Infelizmente esse modelo de verticalização é importado para a igreja e aí o "balaio de gato" fica maior do que podemos imaginar. Há os verdadeiros líderes, más não são a regra.
    De rebeldes a Bíblia está cheia. Moisés, Isaias, Jeremias, João Batista, Jesus e Paulo são exemplos de quem se rebelou contra a verticalização religiosa, do "maior" sobre o "menor" e na igreja deve assim: Mt 23:11.

    Em Cristo, seu irmão

    Ielton